Mare nostrum



Eu vi o homem livre,
livre como o vento noturno do Magreb,
ser chamado por um número que não era seu.
Eu vi o homem livre,
livre como a suave brisa mediterrânea,
ser despido de suas roupas habituais,
ser vestido com embalagens de mercadoria.
Eu vi o homem livre,
livre como o primeiro homem que se ergueu na África,
ser impedido em sua ancestral caminhada para a Europa.
Eu vi o homem livre,
livre como uma tarde preguiçosa de descanso,
ser obrigado a chamar um armazém de lar.
Eu vi o homem livre,
livre como um passeio em um dia livre,
ser conduzido por um caminho que o arrastava.


Eu vi o homem livre.
Vi. Não vejo mais.
Cobriram-no com um manto antigo e espesso
e eu não sou mais livre para ver o homem livre.



.bcg.

o amor e o sal



há uma praia a que chamam
“do amor”, “dos afogados”.

sábio quem deu o nome;
pois não são dois, são um.


.bcg.

réveillon


à guisa de epígrafe, clique aqui



o cão do vizinho late por um recurso.
crianças revolucionam os jardins da servidão.
há uma sensação de contas a pagar no condomínio.
passa um motociclista que abandona o som. 
talvez haja água em Marte.
mulheres cochicham na escada sobre o fim.
todas as expectativas unem-se em matilha.
hoje o carteiro não vem.
amanhã, o Brasil.
as multidões clamam por silêncio.
tantas coisas sobre a mesa.
um idiota derruba sobre uma folha de papel
alguns botões de prosa de cadência.
em meio às sombras, uma ideia faísca.
um leitor anseia por um ponto final.


e eu sonhava construir uma bomba
mas decidi escrever um poema.


.bcg.